Minha mãe morreu (ou Os anjos vão para o Céu!)

Ylen Asor

Há muito tempo que queria escrever este post. Na realidade, desde que eu criei este blog eu tenho essa intenção. Mas, como tempo é produto que anda escasso na prateleira da minha vida, vários meses já se passaram desde que o Blog do Ylen nasceu.

Bem, vamos lá.A minha mãe foi a pessoa mais importante que já passou pela minha vida. Não por ser mãe, simplesmente (como se fosse possível juntar “Mãe” e “Simplesmente“…). Além de gerar-me em seu ventre e dar-me a vida, ela foi além… Ela também salvou a minha vida.

Explico: até o meu primeiro ano de vida, fui socorrido, em média, uma vez por semana.  Pelos cálculos dos meus pais, fui atendido em hospitais, ambulatórios ou pelo farmacêutico do bairro, o querido Albuquerque, cerca de 47 vezes  antes de completar meu primeiro aniversário… se lembramos que um ano possui 52 semanas…

O fato é que nasci com um sistema imunológico muito debilitado. Convivi diariamente com tosse, bronquite, catarro, dor, cólica, diárreia, febre, frio, irritação, falta de apetite… e por aí vai. Para completar, não tínhamos quase nenhum recurso em nosso lar. Quase ninguém apostava que eu iria sobreviver. Diante da pobreza em que vivíamos, inúmeras vezes, os médicos viravam-se para a minha  e  afirmavam-lhe que iriam me internar…

- Internar?! Meu filho??! Isso Nunca!!

Essa sempre foi a reação de minha Mãe (porque Mãe se Escreve com letra maiúscula!).
Sempre achei que ela não queria me deixar no hospital público. Talvez tivesse medo do descaso, da falta de condições do hospital para pessoas pobres, como nós. Sempre pensei isso.
Mas, não era bem assim. Um dia, ela me disse: “Sabe meu filho, eu nunca quis que lhe internassem porque eu tinha medo… medo que raspassem a sua cabeça e furassem ela pra colocar aquela sonda que eu via na cabeça das outras criancinhas. Era por isso que eu não permitia que ninguém lhe internasse.”

Valeu, Mãe. Te devo mais essa.

(Minha cabeça já é achatada atrás. Imagina furada com um canudinho , ia parecer o quê? Um côco verde de beira de praia, no mínimo.)

Passamos muita fome juntos. Mais de uma vez ela ficou sem comer pra gente poder almoçar.
Meu Pai naquela época já estava perdendo a batalha para a bebida e ingeria aguardente pura, muitas vezes apenas para anestesiar a dor de uma úlcera que tinha, mas não sabia. Quando não havia cachaça, ele tomava um comprimido efervescente de Alka-setzer…

Aliás… eu nunca soube se ele adquiriu a úlcera estomacal em função do vício da bebida, ou se ele tornou-se um viciado justamente pelas dores causadas pela úlcera…

À essa época, minha Mãe já participava da “Lei de Crente”, frequentando a Igreja Assembléia de Deus. Inúmeras vezes eu a vi, ajoelhada no chão, chorando e orando a Deus, pedindo misericórdia e ajuda para o nosso lar. Ela sempre orou para que meu pai se convertesse à religião dela.

Foram 7 anos de oração. Mas, sabe, parece que as coisas só pioravam… A bebida tornava meu pai agressivo, distante, sofrido, autoritário,  desconexo, irritadiço… e magro. Muito magro. Lembro que meu velho chegar a pesar apenas 48 kilos (com a estatura de 1,70m)…
Até que ele converteu-se…

E toda a nossa vida começou a mudar. Ele conseguiu largar a bebida e, após seis meses, deixou de fumar os 80 cigarros diários… Dedicou-se a estudar a bíblia e a orar. Ah! A força da oração em um lar!…

Aos poucos, com a casa harmonizada, começamos a prosperar um pouquinho… O alimento não faltava, e  o dinheiro já chegou até a sobrar de tal forma que, um dia, ele nos levou à feira do bairro em que morávamos, na periferia do Recife, e comprou-nos 5 roupas novas, uma para cada um dos filhos!!! O momento foi tão especial que, dois dias depois, registramos tudo  na fotografia  abaixo ( o  que foi um outro luxo, uma fotografia nossa!!)

Felizes de roupas novas!

Aos 13 anos, após acordar de um terrível pesadelo em que o mundo se consumia em chamas e eu era queimado vivo, decidi (??), para felicidade dos meus pais, converter-me à religião deles. Na verdade, como ouvia falar, dia e noite, do inferno, tive foi muito medo de ir pra lá…

Anos depois, após uma experiência em que eu saí do meu corpo físico, percebi que estava na hora de tomar outros caminhos, uma vez que, como pude perceber, eu permaneci vivo e lúcido mesmo sem o meu corpo físico. O nome disso, descobri mais tarde, é desdobramento, ou como dizem outros, projeção do corpo astral.

Mais alguns anos e descobri, finalmente, a Doutrina Espírita na qual  consegui respostas claras, lógicas e concisas para as minhas indagações.

Naturalmente, o fato de eu ter me tornado espírita, trouxe desapontamento para os meus pais, notadamente para a minha mãe, que, em seu desconhecimento, referia-se a ela como a Doutrina do Diabo…

Durante 8  longos anos, para minha tristeza, sofri a reprovação e a condenação de minha querida mãezinha, mas, convicto que a vida sobrevive ao corpo de carne após a morte, mantive as minhas posições.

Foi, então, que minha mãe morreu. Um infarto fulminante quando contava ela 50 anos de idade apenas. A nossa ligação era tão forte que, estando eu em Recife, a 1.900km de Vitória-ES, senti, na mesma hora, os mesmos sintomas de sufocamento e angústia respiratória que ela sentia lá, enquanto infartava…

Fui ao velório do seu corpo, mantendo-me, para surpresa de todos os meus familiares, extremamente calmo e serenado durante todo o tempo. Pude consolar o meu pai e aconselhar alguns irmãos.

Dois dias depois, já de volta a Recife,em minha casa, a mãe  de minha filha queixa-se que não consegue dormir e diz pressentir a presença de uma entidade em profunda aflição. Levantei-me e sugeri lermos o Evangelho Segundo o  Espiritismo e fazermos uma prece. Minutos depois, ela avisa:
- É sua mãe!

- Por favor, permita que ela se comunique comigo – Eu pedi.

Eis então que sinto a presença de minha mãe em estado lamentável de inconformação e desespero, por ter sido colhida de forma surpreendente pela morte…

Inicio um carinhoso diálogo com a minha mãezinha querida, buscando serená-la e informá-la que já havia amigos espirituais nossos ali, ao seu lado, prontos a ajudá-la. Ela confirma a informação e descreve o querido amigo Irmão Antonio Lucas, como sendo um espírito de feições alemãs, alto, branco, forte e sorridente. Sempre serei grato a este amigo por tudo que fez em minha vida…

Um vez com a respiração mais acalmada, pergunto a ela, em tom de afirmação, de lembrança, de conscientização:
- Mãe, a Vida continua, não é?
- E  não é, meu filho!!!  – Diz-me ela entre soluços e risos.

Momentos depois, espontâneamente, ela me diz:
- Meu filho, sabe quem veio me receber?
- Não, mamãe, não sei. Quem veio lhe receber?
- Vado, meu filho! Vadinho veio me receber!!!
- Que bom, mamãe! E quem mais veio lhe receber ( pergunta desnecessária, ma na hora, nem me apercebi disso…)
- Ah! Meu filho! Veio Vadinho e Zé Severino! – Respondeu ela.
E sorrimos os dois, felizes!

Minha mãezinha querida foi então conduzida por nossos amigos espirituais, sendo acomodada em uma clínica hospitalar para refazer as forças ser melhor atendida.

Após a prece de profundo agradecimento a Deus pela benção do socorro à minha mãe através da mediunidade, foi a vez da médium perguntar-me:
- Afinal, quem são os espíritos que vieram receber a sua mãe?
- Eu não sei. Não tenho a mínima idéia! – Respondi, para surpresa dela.
- Mas… me pareceu tão familiar! Achei que você sabia de quem se tratava.
- Não. Nunca ouvi falar. Mas vou falar com os familiares da minha mãe. Certamente alguém deve conhecê-los. – Falei.

Foi o que fiz. Entrei em contato, primeiro  com o meu pai e os meus irmãos… péssima idéia, percebi logo. Dois deles se revoltaram contra mim, afirmando que isso era coisa do diabo e que nossa mãe merecia respeito, porque ela estava no céu, etc, etc, etc…

Bem, foi triste mas eu não podia esperar outra coisa deles, em função da curta visão que possuem da vida espiritual, imposta pela religião evangélica.

Falei com os irmãos de minha mãe e outros parentes, que também não conheciam os dois personagens que receberam minha mãe no plano espiritual.

Até,que finalmente, consegui falar com minha vozinha, mãe de minha mãe. Uma senhora negra de olhos verdes, analfabeta mas de falas diretas e de tez castigada pelo sol, por anos a fio no corte da cana-de-açúcar do agreste pernambucano.

- Vó, – perguntei – Eu falei com mamãe, três dias depois que ela morreu.  A senhora acredita?
- Oxe! Claro que acredito meu filho. Sua mãe era ‘média’ desde pequena. Mas depois se ‘enrabichou’ na saia do padre até casar, e depois de casar, foi virar santa na ‘lei de crente’!
- Pois bem, vó. Acontece que ela me disse que duas pessoas vieram receber ela no plano espiritual. Foram Vadinho e Zé Severino. A senhora conhece eles? Porque eu já perguntei a todo mundo e ninguém sabe quem é.
- E num conheço, meu filho! Mas desse jeito ninguém nunca ia saber quem era ele. Acontece que o nome dele num é Vadinho. O nome dele é Ladislau! Só quem chamava ele de Vadinho era a sua mãe. Eles eram muito amigos. Ele era muito bom com todos. Vivia numa cadeira de rodas. Eu dizia que ela ia casar com ele quando crescesse porque os dois eram ‘unha e carne’!
- Ah! Vó! Então tá explicado! Mas, quando foi que ele morreu?
- Meu filho. Faz muito tempo. Ele morreu quando sua mãe tinha 14 anos.
- Bem, Vó. Isso explica porque ninguém conhecia ele, já que a morte dele foi a 36 anos atrás…
- Verdade, meu filho.
- Vó, e Zé Severino?
- Oxente, meu filho! E num é o pai dele? Mas,olhe, esse eu acho que está vivo, porque faz uns três anos que ele foi pras bandas do Rio de Janeiro…
- Vózinha – disse eu – A essa altura, ele já bateu as botas há muito tempo! – E rimos os dois com a situação.

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Bem, amigos, espero que ao compartilhar isso com vocês neste blog, eu possa contribuir para consolar tantos de nós que perdemos entes queridos.

Saiba sempre de uma coisa: A morte não existe. A vida continua, sempre. A única coisa que ocorre é o desligamento do corpo físico, mas nossos parentes amados continuam a existir, a amar, a sentir e permanecem vivos. Sempre!

Abraços, do Ylen!

54 comentários para “Minha Mãe morreu (ou Os Anjos vão para o Céu…)”
  1. Jacqueline disse:

    Boa noite! Perdi minha maezinha agora no dia 8 de junho de 2010. Sou filha única e nós éramos muito unidas. Uma não ia comer e nem dormir sem a outra. Está sendo muito difícil. È muita dor que eu estou sentindo. Uma dor no peito que sufoca. Vontade de estar com minha mãe. Só Deus pra me dar forças. Creio no espiritismo. Eu vivo, como, faço tudo pensando nela. Que ela ficaria feliz, se eu estiver bem. Tenho certeza que ela já está com Deus. Ela já se encontrou com minha vó. Ela está bem. Meu nome é Jacqueline, de Salvador, Ba. Abraço a todos!

  2. Ylen Asor disse:

    Jacqueline,
    identifgico-me com o seu sentimento.
    Fico extremamente feliz que o seu pensamento seja o de real compreensão do que está acontecendo.
    Sua mãezinha poderá refazer-se como mais tranqulidade da travessia e, assim,
    logo poderá lhe dar notícias, durante o sono físico ou através de outro meio.

    O amor entre duas almas que se compreendem e se respeitam, perdura por além desta vida, e segue por toda a eternidade,
    fazendo com que ambas reencarnem juntas muitas e muitas vezes.

    Abraços amigos de muitas almas amigas que estão ao seu lado.

  3. Patricia disse:

    Bom dia!
    Perdi minha mãe no dia 25/07/2010… e está sendo muito difícil mesmo. Moro em Portugal mas sou de salvador-Ba, e a minha família toda é de lá também. Minha mãe faleceu e eu estou …inconsolavel, nao tenho palavras para descrever o que sinto. Sinto somente um vazio profundo e uma angustia e mta culpa. Culpa por nao ter estado com ela enquanto ela tinha vida. Fez 1 ano dia 26 que estou em portugal. Mas nao fui porque nao tinha e nao tenho recursos para ir.Sei , todos dizem que nao devo chorar, e sim elevar o pensamento para que ela siga em paz…mas nao consigo, choro e a chamo para perto de mim sempre. Gostaria de tentar ajuda-la…preciso ser forte e conter as lagrimas e esse sentimento de posse, preciso entender que ela necessita fazer essa caminhada, mas como a razao explica isso ao coraçao? nao me despedi dela… estou mesmo mto mto mal….obrigada

  4. Ylen Asor disse:

    Patrícia,
    como você sabe, eu entendo a sua dor. Sei a dor que você sente por que também já a senti.
    Não compreendo porque você não pode chorar a dor da perda de sua mãe. Ora, não só pode como deve. Chore.
    Não contenha as lágrimas. Chorar é a expressão do amor que você TEM por ela.
    Quanto a chamar por ela e procurar trazê-la para perto de você… Isso não é o melhor a fazer agora, minha querida amiga.
    Quando desencarnamos, passamos por um processo natural de adaptação ao mundo espiritual, e estamos muito sensíveis aos pensamentos e emoções daqueles que nos mentalizam com força. Assim, su mãezinha acabaria ficando perturbada, porque não conseguiria se adaptar ao mundo espiritual, sentindo-se atraída para perto de você, que também não está em paz… ou seja, o seu desespero só faria mal a ela, que por sua vez, iria se desesperar também.
    Ore por ela, com todo o seu amor. Ela precisa disso neste momento. Logo ela estará em condições de vocês duas se encontrarem, durante o sono do corpo físico.
    Quanto a culpar-se por não ter podido estar com ela, peço-lhe que compreenda que a morte não é o fim, e se você não podia estar com ela, NEM PODERIA IMAGINAR que ela partiria agora, não tem porque culpar-se. Ao contrário, sua ida a outro país é a prova mais que suficiente que você está lutando para viver a sua vida da melhor maneira que pode. VOcê está lutando pelo seu destino.
    A culpa só traz coisas ruins, e é inútil. Não serve para você, não serve para a sua mãe. A vida não vai lhe culpar pelo que você não pôde fazer.
    Portanto, deixe a culpa ir embora e busque compreender que a sua mãe libertou-se. Hoje ela está em mundo muito mais suave e amigo, onde a fraternidade e o amor são a tônica reinante em tudo.
    Estamos sempre por aqui, caso precise de algum esclarecimento.
    Que Deus te abençoe. Sempre.

    Abraços do Ylen!

  5.  
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